Documentário explica por que o Uruguai está na vanguarda dos direitos humanos na região

País foi pioneiro a legalizar a maconha, permitir o casamento gay e regulamentar o aborto na América do Sul
Cena do filme “Uruguai na vanguarda”: país foi o primeiro da região a legalizar o aborto Foto: Divulgação

O que está por trás dos avanços sociais uruguaios nos últimos 30 anos e como o país se tornou a “Suíça das Américas”? Parte das respostas estão no documentário ” Uruguai na Vanguarda “, que estreia esta semana no Rio, e vai atrás das raízes dos movimentos que puseram o pequeno país da América do Sul na linha de frente da justiça social na região no século XXI.  A análise histórica é temperada com um olhar poético sobre a capital, Montevidéu, suas praças e ruas, ora calmas ora tomadas pelos frequentes atos políticos, e uma trilha sonora que  reúne sucessos  de compositores uruguaios, incluindo milongas e candombe.

O pontapé para o filme aconteceu por acaso, conta o diretor Marco Antonio Pereira, fundador e diretor da Urbano Filmes, produtora audiovisual com foco nos movimentos sociais mundiais.

— Por coincidêcia, estava no país para participar de um festival e tinham acabado de aprovar a legalização da maconha . Ver aquilo acontecendo me despertou  uma vontade. Depois, fiz mais algumas viagens ao país e foi apaixonante entender como eles se organizaram para conseguir esses avanços nos últimos 30 anos — conta ao GLOBO. — Cada grupo, dos jovens, das feministas, dos gays e trans, já lutava, separadamente, mas chegou um certo ponto em que todos se uniram e isso foi fundamental. Acredito que, por um país pequeno, as organizações e as interações entre os grupos sociais foi mais fácil.

Além da regulamentação da maconha, que  desde 2012 é vendida em farmácias de todo o país para moradores cadastrados —  e também pode ser plantada para consumo próprio —, o país aprovou, nos últimos 30 anos, garantias de igualdade de gênero, como a lei de cotas para mulheres no Congresso, ainda na década de 1990; o casamento entre pessoas do mesmo sexo , em 2013; além de ser o primeiro da região é garantir a interrupção voluntária da gravidez, em 2012 — uma importante conquista do movimento feminista. Para efeito de comparação,  o Senado da Argentina rejeitou, em agosto deste ano, a lei que legalizaria o aborto no país.

Para explicar tanta vanguarda, foram ouvidos depoimentos de cientistas políticos e sociais, historiadores, ativistas, educadores e artistas, que remontam às reformas do battlismo, na primeira metade do século XX, quando se firmou o estado laico no Uruguai e criaram-se as bases de uma sociedade reformista e progressista. A ditadura civil-militar instalada em 1973, que durou 12 anos, interrompeu esse processo, mas criou um lastro de resistência que iria florescer nos movimentos sociais a partir de meados da década de 1980.

— José Batlle, uma espécie de Mujica há 100 anos, colocou o país numa linha mais democrática e social, principalmente no que diz respeito às questões trabalhistas. O estado laico implantado por ele também foi extremamente importante nesse sentido.

Apesar  dos avanços retratados na tela, no entanto, o filme também abre espaço para críticas, como a questão racial, que ainda avança muito lentamente num país que esconde sua parcela negra. Nesse sentido, há um importante debate sobre o lugar do candombe, tradicional ritmo de tambores africanos, e seu papel na resistência contra o autoritarismo e na luta contra o racismo dissimulado. Um ponto da cidade que merece atenção especial é o antigo cortiço “Medio Mundo”, no Barrio Sur, tido como o berço do candombe. Seus moradores foram desalojados pela ditadura em 1978, e o local é hoje uma réplica sem alma. Mas os tambores jamais se calaram.

—  O tambor acabou tendo mais voz quando foi proibido. Ele se tornou tão forte que jovens, negros e brancos, começaram a se interessar a partir da década de 1980 e o candombe se tornou enorme como é hoje. Um símbolo de resistência para os negros que se transformou no grande símbolo de resistência nacional, e está presente em greves, em atos — afirma o diretor.  — Minha preocupação era que o filme não fosse visto como chapa branca, e, pela repercussão que sua estreia teve por lá, acredito que tenha alcançado esse objetivo.

O documentário acabou sendo o ponto de partida para uma trilogia sobre outros países que, assim como o Uruguai, se destacam em sua região nas questões sociais. Os próximos documentários falarão sobre a Costa Rica, também vanguarda na América Central, e sobre a Tunísia, onde começou a Primavera Árabe.

— Não é uma questão de esquerda ou direita, mas de direitos —  diz Pereira.

FONTE: https://oglobo.globo.com/mundo/documentario-explica-por-que-uruguai-esta-na-vanguarda-dos-direitos-humanos-na-regiao-23959323?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo

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